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Análise de Série: Sex Education e sua importância

Além de muita polêmica por tratar de assuntos de enorme tabu na sociedade, principalmente na brasileira (Alguns é bem hipocrisia mesmo), o segundo ano de uma das maiores séries de sucesso da Netflix trouxe mais temas para refletirmos sobre. Claro, talvez eu perdi o timing da série porque eu não quis começar logo de cara, apesar de já ter terminado em menos de uma semana (E, não, não ficarei marcando a netflix para a terceira temporada sair logo porque sou ocupado e tenho outras séries para ver). Vou comentar um pouco do que acho necessário da série e dar uma nota bem linda no final (Não sou a Billboard nem o New York Times, mas tenho opinião). Ah, detalhe, contém spoilers!

1) Desconhecimento de ISTs e do ato sexual

Desde o trailer da primeira temporada, sabíamos que ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e ato sexual, independente de como feito, seriam abordados de forma consciente (Esperávamos, ao menos). Na segunda temporada, não foi diferente: o primeiro episódio traz uma “infestação” de clamídia, a qual foi transmitida pelo ar, o que é totalmente errado. Claro, isso foi a intenção de mostrar o desconhecimento de alguns alunos, em sua maioria, sobre o assunto. A partir disso, o assunto com a Jane, terapeuta sexual contratada pela escola, começou a caminhar de forma leve pelos alunos.

Jane, terapeuta sexual e mãe de Otis

Inicialmente, tinham medo do que ela falaria por terem receio de comentar, mas os rumores de que ela abrangia tudo de forma pacífica, calma e com integridade do que falava amenizou a situação. Disso, tomamos atenção de muitos tabus da sociedade perante aos jovens. Desde o excesso de masturbação, até mesmo o descobrimento de sua sexualidade e nível de libido, os debates variavam e fluíam de forma precisa. Basicamente, esse tipo de exposição é uma influência aos pais, os que possuem um maior conhecimento e liberdade com os filhos, para dialogarem sobre, a fim de evitar certos problemas ou dúvidas.

Otis, personagem principal e namorado de Ola

2) Insegurança no ato sexual:

Desde o início, cenas que representavam o sexo eram mostradas de forma implícita, afinal a série é recomendada para maiores de 16 anos. A insegurança era quase permanente em todos os casos, principalmente pelo desconhecimento do próprio corpo, da própria autoestima, além da insegurança para com o parceiro, o que dificultava a relação entre o casal. Desde momentos entre um relacionamento gay, em que a lavagem anal (a famosa chuca) é temida, ou uma relação hétero, em que uma conversa deveria ocorrer para saber como satisfazer o companheiro. Tudo isso foi abordado cautelosamente, além de colocar sempre o tempo de cada pessoa como foco importante.

Ola, namorada de Otis (até episódio 5, se não me engano)

3) Assexualidade, Bissexualidade e Pansexualidade:

Para muitos, a diferença das três sexualidades é clara. Entretanto, para outros, não, principalmente as Bi e Pan. A série mostra uma forma bem didática a assexualidade: uma ausência ou pouca atração sexual com o parceiro. Ainda deixa claro que pessoas assexuais podem possuir libido, mas não se veem tendo a relação sexual. Além disso, assexuais podem, sim, ter um relacionamento amoroso com outra pessoa.

Adam, filho de Mr. Gruff, questiona sua sexualidade durante a temporada

O que confunde as pessoas é a diferença entre as outras duas. Uma pessoa bissexual sente atração sexual, ao menos, por dois gêneros. Já a pessoa pansexual sente atração por pessoas, independente do gênero, da sexualidade, do orgão genital ou da identidade de gênero do companheiro (Espero ter explicado de forma claro, mesmo que tenha sido superficial. Quem entender melhor do assunto e quiser comentar, a caixa de comentários é logo abaixo e eu farei as adaptações).

Na série, os exemplos de cada sexualidade são o Adam e a Ola. A assexualidade é exposta por uma personagem secundária (Perdõe, mas eu esqueci de anotar no nome dela e não lembro qual episódio falam o nome dela, mas é a garota que faz, se não me engano, a Julieta na peça do episódio 8).

Mr. Groff, diretor do colégio

4) Masculinidade Frágil:

Um dos assuntos mais debatidos do momento é sobre a masculinidade frágil de muitos homens. A série expõe isso em dois personagens: Otis e Mr. Groof, o diretor. Otis é um personagem chato e insuportável, acreditando ser um bom homem, sendo no final um ‘pé no saco’. Em vários momentos ele não sabe o que faz, vive acreditando que a solução está em suas pesquisas (especificadamente a cena do sexo com a Ola em que ele usa a técnica do relógio). Óbvio que ele se esforça, mas a forma como ele age com a Maeve, com a Ola, com a mãe dele e com mais um monte de mulheres é extremamente “vergonha alheia”. No final, pelo menos, ele se redimi com algumas, assumindo que foi um tremendo babaca.

Além dele, tivemos a problemática situação com o diretor. Após o pedido de divórcio, ele se reduziu a um pequeno ditador do colégio. Após ver que a Jane ter sido um dos ponta-pés para o seu divórcio (Porque ela disse a esposa sobre libido, que ela poderia se masturbar e que era saudável a relação sexual entre marido e mulher), ele aproveitou que viu Otis com as anotações da mãe e, abusando de sua autoridade, invadiu a privacidade do menino, abrindo o armário e xerocando a caderneta. O pior foi ele espalhando tudo pela escola, expondo os alunos, muitos deles menores de 16 anos. Ele vingou-se e jogou a culpa em cima da mãe de Otis, demitindo-a do cargo. Extremamente problemática, se descobrirem que foi ele quem fez isso, além da exoneração de cargo (que ocorreu no final no oitavo episódio), vários processos poderiam ser feito a ele.

Ola e Lily, sua amiga, formam um casal no episódio 8

5) Opressão na adolescência:

Esse tema não foi abertamente dito, mas dialoga com o que mostrei no anterior. O ponto principal foi a peça de teatro sobre Romeu e Julieta com um olhar espaço-sexual, uma releitura engraçada e divertida. A opressão vem do próprio diretor que acredita naquilo como uma subversão dos bons costumes e que jovens não sabem o que querem da vida, principalmente o sexual, interrompendo a peça no final. Muito semelhante ao que vemos hoje no Brasil, né?

6) Estrelismo e pressão social:

Jackson é um dos melhores atletas do colégio e o mais popular deles. É esperado, então, uma excelência de suas atividades e conquistas, o que acarreta uma enorme pressão em cima de si, tanto de sua família, quanto de seus colegas. Dessa forma, como medida desesperada, ele causa um próprio acidente, que é pôr a mão embaixo de pesos de academia, causando uma fratura e a sua saída momentânea da natação, permitindo a ela o conhecimento de novas áreas, como o teatro.

Os momentos de sua melhora são tensos, porque ele não consegue ser sincero com as pessoas ao seu redor por medo da humilhação e rejeição. Quando ele, finalmente, coloca seus sentimentos para fora, nota-se que há uma enorme melhora de seu humor. Ainda há muito medo dentro de si, podemos ver isso com a sua demora para entrar no palco na peça, mas isso ele vai vencendo aos poucos. A série mostra com todos os passos e detalhes toda a trajetória dessa pressão social. É conflitando acompanhar tudo, mas felizmente tudo se encerra bem.

Rahim, aluno novo, apaixonado por Eric

7) O relacionamento de Eric e Rahim:

Era esperado uma evolução maior de Eric. Além de ser o personagem mais carismático da série, o que cativou muitos fãs ao redor do mundo, sua essência é essencial para quebrar climas tensos. Disso, a chegada do Rahim, aluno novo, e a sua aproximação com Eric foi um dos momentos mais esperados, pois imaginávamos eles namorariam. No meio da temporada, isso ocorre. Entretanto, eu tenho certos pontos que me causam aversão ao Rahim. Primeiro, ele não é o personagem mais carismático da série. Seu semblante mais fechado, por consequência de uma fuga de guerra, contrapõe toda a aura brilhante do Eric, o que apaga muito o personagem, deixando as cenas de casal muito fraca.

Segundo, não ter os mesmos gostos é relativamente óbvio, mas ele age de uma forma muito escrota quando o Eric fala que é religioso, que gosta de concertos musicais e que participa da banda do colégio. Além disso, Rahim não possui uma segurança muito grande, talvez por ser bem fechado, o que acaba dando sinais de ciúmes da reaproximação de Eric com Adam. Ele mesmo afirma ao namorado “Ele te faz rir de uma forma que você não ri comigo”; Rahim nem se esforça para rir, ou fazer o namorado rir, então, né colega, fica difícil te ajudar.

Desde o início, eu vi que o Eric ficou com Rahim por acreditar que ele era o homem certo para ele, mesmo não sendo apaixonado realmente por ele. Mas, sei lá, posso ter captado errado toda a essência dos dois. Para mim, Rahin precisava apreciar mais as coisas do Eric e não ficar questionando o porquê ele fazer isso ou não.

Maeve, uma das personagens principais

8) Apoio feminino:

É comumente visto em muitas séries a falta de apoio entre as mulheres, muitas vezes causado por briga por homens ou por fofocas. Obviamente isso não faltaria em Sex Education, mas algumas cenas mostram que, infelizmente, o ponto em comum entre as mulheres é o abuso sexual, ou o assédio. Nessa temporada, a amiga da Maeve, a Aimme, estava indo ao colégio e um homem a assediou no ônibus, ejaculando em seu roupa. Toda a cronologia dos fatos baseou-se na ideia de que a ação não daria em nada, a necessidade de abrir um boletim de ocorrência na polícia, trauma que isso pode acontecer, como evitar contato com homens ou evitar certos locais, além de miragens causadas pelo medo.

Aimme e Maeve na delegacia após o BO

A união de algumas mulheres da série, como Maeve, Ola e outras três deu-se por isso. O compartilhamento de suas lembranças de quando foram assediadas as fizeram entender a necessidade dessa união. Uma das cenas mais bonitas da temporada toda foi as seis subindo no ônibus em apoio à amiga, simples e muito forte.

OBS: Isso me fez refletir sobre um livro que estou publicando atualmente, está nos primeiros capítulos, mas a intriga principal ocorre entre duas mulheres. Futuramente, mudarei o rumo da história, pois creio que eu, como homem, colocar duas mulheres rivalizando, não ajudará em nada. A história já está escrita, e usarei disso para evoluir as personagens e aqueles que as rodeiam. Caso alguém queira ler, aqui o link.

Jacob, pai de Ola, ficante de Jane

9) Perdão:

Se houve um tema extremamente sugado nessa temporada foi o perdão: a Maeve com a mãe, Eric com Adam e Otis com sua mãe.

A situação de Eric com Adam deu-se por toda a situação que foi criada na primeira temporada, principalmente com a interação sexual entre os dois, fazendo Eric criar um vínculo imaginário com Adam. A partir de seu retorno do colégio militar, ele arranjou um emprego e, durante a madrugada, começou a ir a casa de Eric para ambos irem a um local excluído para destruírem objetos antigos, aliviando a raiva interna. Dessa forma, eles retornaram a ter um vínculo de amizade. Ademais, Adam começou a questionar a sua sexualidade, encarando que gostava tanto de homens quanto mulher, assim como eu falei no item 3. No final, eles não ficaram juntos, mas a intereção e a química deles aflorou muito mais (Bem mais do que a de Eric com Rahim, que se excluiu disso, encerrando o namoro deles).

Tivemos também toda a cena entre Jane e Otis, que bancava o terapeuta sexual na escola antes da mãe aparecer (Ele até continuou depois que a mãe chegou, mas perdeu muito apoio). Além disso, todo o romance de Jane com o namorado colocou raiva no Otis, ainda mais que o namorado era pai de Ola, namorada naquele instante do jovem. Veio a noite da festa, em que a casa de Otis foi arrasada e largada às traças, e a descoberta por Jane do “trabalho” do filho, tudo isso criou um enorme conflito entre os dois. Era mais por ciúmes de Otis, que não era mais o principal foco da mãe.

Erin, mãe de Maeve

Por fim, tivemos um dos casos mais conturbados, que foi da Maeve e de sua mãe. Usuária de drogas, que abandonava a filha diversas vezes, retornou para o lado da filha quando foi largada do ex-namorado, que a espancava. A mulher tentou se restabelecer, indo a reuniões de ex-usuários, além de buscar emprego para ajudar na moradia na filha. Tudo ia bem, até que um novo vizinho de Maeve, não confiando na mãe dela, começou a espioná-la, descobrindo que a mãe passou a ficar tempo demais na casa e não indo trabalhar. Ao contar à Maeve, é revelado que a mulher perdeu o emprego e que ficava fumando cigarro.

Isaac, novo vizinho da Maeve, apaixonado por ela e insuportável

A desconfiança foi implantada e Maeve começa a investigar a mãe, a qual foi encontrada portando drogas, as mesmas que era viciada antes. Após denunciá-la para o conselho tutelar, a mulher, que tem uma filha mais nova, é levada por policiais para investigação. Disso, a intriga entre mãe e filha retorna, com ar de que não terá perdão. Disso tudo, o que eu consigo perceber é que Maeve está confiando demais no tal vizinho. O que todos não imaginavam era como ele seria tão escroto, apagando a mensagem do celular que Otis havia mandado, dando um olhar abusivo a ele. Provavelmente, na próxima temporada, irá falar sobre esse tipo de assunto, além de ele abusar da deficiência motora.

10) Cenas de vergonha alheia:

Olha, se uma característica é bem adequada para muitas cenas da série é essa: eu senti muita vergonha alheia de muitos personagens, principalmente do Otis na festa em que ele estava bêbado, ou do pessoal caçoando do Jackson durante a peça. Eu cheguei a pausar a série um monte de vez porque a minha vergonha era demais. Não que seja importante, ou que o pessoal se importe, mas isso me dá uma aflição enorme. Agora, a necessidade delas para o andar da história é bastante.

Nota final: 95/100

Considerações finais: A série aborda temas necessários desde o início, a construção das personagens, das suas características e de todo enredo é feito de forma impecável. Mesmo colocando algum preconceito em jogo, ele não é posto para causar apenas, é para ser desconstruído no caminhar da história. A única parte que perde pontos comigo foi as cenas e vergolha alheia que, como eu falei, dá uma aflição enorme, então eu ficava saindo da série. Além de ter uns momentos em que os diálogos não iam, pareciam que freavam o ritmo.

Há muitos debates que eu não comentei e que são de extrema importância. como compra da pílula do dia seguinte devido a uma relação sexual com duas pessoas bêbadas e a incerteza do uso de preservativos, relacionamento entre adultos, fetiches e construção da sexualidade, tudo isso é trabalhado de forma metódica e divertida.

Espero que tenham gostado da análise. Boa leitura e até o próximo post.

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